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Os estoicos jamais imaginaram que estariam em manuais de autoajuda 

O estoicismo é uma corrente filosófica grega com ampla divulgação na cultura ocidental. Por utilizar conceitos que tratam sobre equilíbrio emocional, resiliência e autoconhecimento, as frases e aforismos estão cada vez mais presentes em manuais e nos discursos de profissionais ligados à ideia de autoajuda. E pior, boa parte sem qualquer aprofundamento e conhecimento sobre a origem do pensamento estoico. 

No conteúdo lançado pela internet, o professor Clóvis de Barros Filhos tratou de diferenciar bem o pensamento estoico do pensamento cristão. Segundo ele, a visão grega sobre o Divino se difere muito da ideia defendida pelo cristianismo. Para o estoicismo, Deus é o próprio Universo, é a chamada crença no Panteísmo. Para os estoicos, a noção da matéria está fortemente ligada à noção do esforço, considerando negativa qualquer forma de passividade. Sendo assim, todo o cosmos é regido por uma harmonia que determina os acontecimentos. “Isso porque o universo não foi criado pelo homem, não é fruto da inventividade humana. Toda a sua perfeição não se deve nada ao homem. Muito pelo contrário”, descreve Clóvis no episódio 147 do Partiu Pensar, intitulado Concepções de divindade. Então, para os gregos, Deus é uma grande abstração, enquanto para o cristianismo ele é personificado e humanizado. 

O assunto é longo. Mas por qual motivo, em uma sociedade capitalista cristã, têm se divulgado com tanto vigor a mensagem de pensadores estoicos como Marco Aurélio, Sêneca, Epiteto compilados em manuais e frases feitas em palestras e cursos de aperfeiçoamento pessoal? Primeiro porque faltam referências pra muita gente que se propõe a falar sobre assuntos que não conhece. Segundo porque a mensagem estoica de aprender a lidar com adversidades, a concepção de autocontrole e a superação de obstáculos ajuda bastante a ideia motivacional em um ambiente competitivo corporativo. É mais um exemplo oportunista de como um discurso pode ser descontextualizado para se adequar a uma lógica que interessa a quem a divulga. 

Para o professor Clóvis, sendo monoteísta não dá para abraçar a tradição grega sobre divindade. São formações filosóficas absolutamente incompatíveis. 

Em texto publicado pela Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia, uma citação me parece precisa. “Se a regra é ser feliz a qualquer custo, essa regra foge da máxima filosófica que é o conhece-te a ti mesmo, porque conhecer-se a si mesmo é exatamente não fugir das complexidades que isso significa. É, em suma, um contínuo e árduo processo de enfrentamento de si”. 

Talvez ao estoicismo tenha sido dado um problema parecido com o cristianismo em alguns aspectos. Sobretudo na interpretação que líderes cristãos fizeram de passagens bíblicas para justificar tantas barbaridades ao longo da história e na atualidade. Falta estudo, mas também tem muita má intenção nisso tudo. 

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